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Capital do retrocesso, ou o caos

 

Nos anos 70 ou 80, já não me lembro, a jornalista Maria Nilce cunhou uma das expressões mais características de um costume dos ilhéus: "passeio dos enforcados". Creio que a expressão vinha como título de um texto que bem poderia ter seu teor de crônica. E desenhava magistralmente a família que, nos fins de tarde, tirava o carro da garagem, o varão à direção, a virago no carona e os filhos no banco de trás, e ia dar uma circulada, que sempre incluía Camburi, para acalmar a prole ou ver além do tédio dos fins de semana. A expressão vinha do fato de os rebentos abraçarem, junto com os bancos, o pescoço dos pais. Era um costume burguês muito chique.

 

Os "enforcados" desapareceram em virtude de várias mudanças. Hoje as crianças preferem ficar em frente ao computador ou agarradas ao Playstation com o iPod enfiado no ouvido a sair por aí no banco traseiro dos carros dos pais. Ou não são assim tão inocentes e têm mais o que fazer.

O que parece não ter mudado é a atitude do motorista de Vitória. Ainda somos pachorrentos, distraídos, achamos que o sinal verde que acabou de abrir vai ficar verde por uma eternidade, e sair pisando o acelerador para desocupar o caminho pode parecer de extremo mau gosto.

Quando encontramos um desses paquidermes à nossa frente, é até justificável que desejemos passar por cima dele, mas, fico aqui pensando, será que a culpa é toda dele?

Creio haver juntado, nos meus parcos trajetos à direção, alguns aspectos que bem podem justificar a lerdeza dos motoristas de Vitória. Ou espalhar a cizânia.

Não temos de fazer grandes retornos para tomar outra direção. A Reta da Penha, uma das mais movimentadas e encrencadas vias da cidade, possui vários, em todas as direções. Outro exemplo é a Dante Michelini, a tal ponto que em Camburi é sempre seguro e mais rápido andar na pista do meio. A Av. Rio Branco é um escândalo. Um amigo meu definiu como "arquitonto" (magnífica palavra-valise, mas não sei se a expressão é dele nem de quem seja) o sujeito que a transformou numa reta cheia de curvas. Tudo isso para transformar o caminho do ilhéu mais rápido - e patrocinar o caos.

É ridícula a quantidade de semáforos. Quem pode andar numa cidade em que raramente se encontram sincronizados?

Ah, sim, e não podemos nos esquecer da mentalidade tacanha de alguns engenheiros de trânsito ao criar entraves nas pistas com o sacrossanto fim de diminuir a velocidade dos veículos com o fim de assegurar a segurança dos contribuintes. Isso santifica as cunhas de canteiros invadindo as pistas a torto e a direito em nossas vias. Sim, beatificados, a par do caos instalado no trânsito, esses anacronismos ainda estão por aí.

Claro que essa pequena lista de barbáries é muito maior. Mas basta para que eu fique aqui pensando: será que somos saudosistas? Que teimamos contra o progresso com o concurso das autoridades de trânsito? Será que não somos ainda os bons e velhos e chiques enforcados? Com a bênção da incompetência?

 

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