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Ritchie Blackmore's "New Age"

 

Costumo dizer, por idiossincrasia e sarro, que se enfeixássemos uma dúzia de guitarristas de rock não teríamos um Sebastião Tapajós. Com algumas ressalvas. Excetuo dessa caçarola de meros exploradores de escalas gente como Steve Hackett, Martin Barre e, é claro, Ritchie Blackmore.

 

Depois da baixaria que sucedeu ao concerto do Deep Purple em Birminghan em 9 de novembro de 1993, último de Ritchie Blackmore com a banda que ele formou e com cujo vocalista vinha travando guerrinhas particulares, era de se esperar que ele fizesse algo que justificasse seu indiscutível talento. Depois do copo d’água em Ian Gillan e tapas no camarim, isso ainda demoraria a acontecer.

 

Ian Gillan provaria que estava muito jovem pra morrer. Embora descaracterizado, o Deep Purple mostrou, em seguida, que tinha fôlego. Purpendicular, sem Ritchie Blackmore, mas com Steve Morse, é o melhor disco que fizeram desde que retomaram suas atividades em 1984.

 

Quanto a Ritchie Blackmore, o último disco de Ritchie Blackmore’s Rainbow, Stranger in us all, é sofrível. Fórmulas gastas com bons músicos e um vocalista com timbre manjado. O resultado foi desastroso.

 

Na verdade, o que me parecia faltar esse tempo todo era música. O Deep Purple criou o hard rock, fez quatro discos que entram em qualquer antologia - refiro-me aos In rock, Firebal, Machine head e Who do we think we are - e, para meu e geral espanto, passou a seguir seus discípulos. E música, não necessariamente rock, nada, com exceção de algumas faixas dos últimos discos.

 

Agora aparece Ritchie Blackmore, vestido de trovador medieval, com um disco de canções medievais feito com a belíssima Candice Night - dizem que o disco é resultado de uma reconciliação, já que a moça é sua noiva e ele, pra variar, havia brigado com ela. Com quem falta brigar? Aparte a antipatia que Ritchie Blackmore conquistou da mídia e do resto, sua competência é indiscutível. É, sem dúvida alguma, um guitarrista do primeiro time. A mídia cita outros, mas a mídia só alcança o calcanhar dos incautos, nada diz a ouvidos sensíveis. E o fato de essa mesma mídia descer a lenha no disco já é atitude suspeita. Eu, quieto e entediado, concluí fácil: a mídia é surda. Esperava um trovão, não estava preparada para ouvi-lo tocando violão, bandolim e tamborim, entre outras coisas, com uma competência de fazer Jimmy Page rosnar contra a lua. As dezesseis faixas do disco são música pura, e apenas música. E a rejeição talvez seja natural. Ritchie Blackmore incomoda com sua orientação musical e suas provocações. Lamentavelmente, para alguns isso parece refletir na sua música. Quem não se deixa abalar, encontrará em Shadow of the Moon o velho e bom Ritchie Blackmore tocando boa música, recompondo-se, afinal, dos últimos vexames.

 

PS: Blackmore's Night já lançou mais de meia dúzia de discos, alguns deles editados no Brasil pela CID.

 

 

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