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Tiroteio na praça do Carmo  

 

 

Quando passei pela praça do Carmo, no centro de Vitória, ainda havia fumegos da confusão geral causada pela perseguição de dois policiais a um assaltante de loja. Seria, pois, o lugar menos provável para que o fantasma do centro histórico da cidade me aparecesse de repente. Mas apareceu, e nunca o vi tão nervoso e agitado.

 

Notando seu estado de espírito (expressão que considero muito apropriada), perguntei o que tinha acontecido.

 

“Levei um tiro, meu ínclito. Veja a marca”.

 

Antes que eu o dispensasse de mostrá-la, o fantasma me exibiu, num gesto arrebatado, a mancha violácea que se instalara no peitoral do seu espectro, no ponto crucial em que um dia pulsou o seu nobre coração vivente.

 

“Se eu estivesse vivo, teria morrido na hora”, lamentou-se ele. “E ainda estou sentindo uma forte queimadura no local. Bota a mão para ver”.   

 

Sem atender ao seu pedido estive a ponto de dizer que era um machucado leve demais para um fantasma e que um simples emplastro sabiá resolveria o caso. Refreei, porém, o comentário descabido, e perguntei:

 

“Como isso aconteceu, caríssimo?”

 

“Azar meu”, disse o fantasma. “Estava passando pela praça do Carmo, depois de uma visita nostálgica à capela de Nossa Senhora Auxiliadora, que você frequentou quando era menino e onde fez a sua primeira comunhão, pensa que eu não sei?, quando me vi apanhado no meio de uma troca de tiros entre policiais e um mequetrefe saído não sei de onde. Resultado: uma das balas sobrou para mim. Nunca pensei que isso me acontecesse depois de morto. E olha que há oitenta anos eu estive nesta mesma praça e saí ileso do tiroteio que houve no comício do 13 de fevereiro de 1930,  lembra-se dele?”

 

Disse ao fantasma que não era do meu tempo, mas que meu pai assistira ao comício e costumava lembrar a fúria dos cavalarianos embriagados que da mata do morro de São Francisco disparavam armas contra o povo, ferindo uns, matando outros, desbaratando todos.

 

“Uma barbaridade, meu digno”, rugiu o fantasma. “O povo debandou em pânico quando ouviu o primeiro estampido. Na correria, eu, que estava lá, perdi o meu chapéu novo, um belo chapéu de feltro marrom comprado na véspera na Casa Flor de Maio para estrear no comício. Você sabe que eu e o meu dileto amigo, o comendador Deodato, sempre primamos por usar bons chapéus. Aliás, o que mais sobrou do corre-corre geral foram chapéus masculinos espalhados pelo chão, catados por desocupados para serem vendidos a vintém, no dia seguinte. O engraçado é que eu só notei que estava sem chapéu quando me refugiei no Café Avenida, na praça da Independência, onde fui parar. E todos os que ali estavam, repetiram para me consolar: ‘eu também perdi o meu!’. Foi um toque cômico numa tragédia histórica. Histórica e inesquecível”, frisou o fantasma.       

 

“E o comício quase terminou sem incidentes”, disse eu, que lera sobre o assunto. “Tudo aconteceu no finalzinho”.

 

“Jamais terminaria bem, meu digno, embora ninguém pudesse prever a gravidade do que veio a acontecer. Só depois é que se viu que tudo fora premeditadamente armado pelo governo estadual para terminar como terminou, eis o âmago da questão. O comício era da oposição e bastou o último orador da Aliança Liberal, a favor de Getulio Vargas para presidente do país, bradar que o governo era ladrão de votos, para que a fuzilaria começasse. Tiros de um lado, patadas de cavalo do outro sobre a multidão encurralada. Foi um Deus nos acuda, um estouro de boiada. O comendador Deodato, que estava no comício comigo, só reapareceu no dia seguinte. Na hora do aperto, eu vi um caixeiro-viajante, que era rotundo e baixinho, mergulhar através do óculo do porão de uma residência da praça do Carmo e depois de passado o tiroteio, não conseguir sair por onde entrou. Durante décadas os habitantes de Vitória guardaram na memória a trágica lembrança do 13 de fevereiro. Uma barbaridade!”

 

“Trágica memória coletiva”, disse eu.

 

“Tragicíssima”, ratificou o fantasma. “Vitória era um cidade pacata, sem violência, onde todos se conheciam. Havia respeito para com os vivos e mortos. Veja o que estou dizendo, meu digno: respeito com vivos e mortos. Quando um enterro passava, a caminho do cemitério de Santo Antônio, os homens paravam na beira da calçada e tiravam o chapéu, em sinal de respeito ao morto. Quando eu morri, este costume respeitoso já tinha desaparecido, talvez porque não se usassem mais chapéus. E o luto pelos parentes falecidos? O luto durava meses, durante os quais os homens usavam fumo, que era uma fita preta no braço ou na lapela para indicar publicamente o pesar pelo passamento de um ente querido. Era assim. Quando o comendador Deodato morreu, eu fiz questão de usar fumo na lapela, pela dileta amizade que nos unia. Hoje, você vai pela cidade descuidado e pode tomar um tiro a esmo, em pleno dia, como aconteceu comigo. Parece que chamam isso de bala perdida, segundo ouvi dizer. Uma barbaridade! E todo mundo acha normal. Eu sou de outro tempo! De um tempo em que a cidade de Vitória tinha árvores frutíferas nos jardins das casas e se uma manga caísse de uma mangueira na cabeça de um cidadão causava uma comoção pública. Agora, vê se era possível passar pela minha imaginação que um dia eu seria baleado na mesma praça do 13 de fevereiro, mais de oitenta anos depois do infausto comício do qual logrei escapar vivo”.

 

“Ainda bem que você já estava morto, não é meu digno?” pilheriei com ele.

 

Ele recebeu bem a brincadeira e comentou: “Só que o tiro está me dando uma sede insaciável, que não tenho como remediar. Veja como minha boca está seca”.

 

“Não é preciso mostrar, meu caro, eu acredito na sua palavra”, atalhei evitando que escancarasse para o meu lado a fauce horrenda.      

 

“Então, deixe-me ir novamente até a capela do Carmo agradecer a Nossa Senhora Auxiliadora por eu ainda estar inteiro”, disse ele elevando-se em direção à igreja.

 

“Suba com Deus, meu digno”, desejei-lhe cá de baixo, ajudando-o ainda com um sopro – um furtivo sopro de amigo.

 


NOTA: O 13 de fevereiro foi, na história do Espírito Santo, o ataque da milícia militar, no governo Aristeu Aguiar (1930), contra a população de Vitória que assistia, na praça do Carmo, ao comício em prol da Aliança Liberal, favorável ao candidato Getúlio Vargas à presidência do País.

 

 

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