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       Trinta anos depois  

Epígrafe: “Falta quem? – Merlim – em nosso conciliábulo.”

Eu sou a tríplice impressão digital que numa travessura infantil manchou a página de um exemplar do livro “Arábia Feliz”, do poeta Emílio Whishaw, na noite do seu lançamento, em novembro de 1963. 

E me fiz impressivamente presente à badalada festa literária pela ponta dos dedinhos da menininha Letícia, que estava sentada no colo do poeta, seu pai, durante a fervilhante noite de autógrafos, na tradicional Livraria Aedo.

Éramos três dedinhos ingênuos e distraídos: fura-bolo, cata-piolho e pai de todos. Juntos, porém, nos tornamos uma impressão única e indissolúvel para todo o sempre.   

O livro em que me imiscuí foi um dos últimos que o grande poeta autografou, depois de centenas de outros. Fora adquirido pelo jovem e retraído professor Thomas Gaizler, que só teve a coragem de se apresentar para o autógrafo porque foi literalmente arrastado por sua companheira Kátia. 

Lembro-me bem da cena: o poeta abriu o livro, na folha de rosto, e perguntou o nome ao professor, para a dedicatória de praxe. Thomas, disse ele. E o seu, moça formosa? - indagou o poeta, voltando-se de caneta em riste para a formosa moça.

Antes que ela respondesse, deu-se a minha arte, ou malasarte: lambuzei-me sem querer no azul da tinta da caneta armada para a dedicatória e me imprimi, una e trina, numa instantíssima trindade, na parte inferior da página do autógrafo.

Ali me grudei marcante e assustada, e o meu deslize só não foi um desastre completo porque Kátia, a moça formosa, com um sorriso simpático de perdão providencial tirou por menos o meu escorregão arteiro, enquanto Thomas riu também e disse, Não faz mal.

Assim fiquei onde me assentei sem ser chamada, abaixo da dedicatória garatujada em letras desconexas e quase ilegíveis do autor, encerradas pela assinatura das iniciais EW, em traços monogramáticos.

Ali fiquei crendo desde sempre que tinha sido bem aceita e perdoada, a salvo de qualquer suspeita de que agira de propósito para manchar de azul, azul de metileno, espúrio e destoante, a página do autógrafo dedicado pelo poeta conjuntamente a Thomas e a Kátia, num livro único.

Na minha visão particular eu me transformara desde então na datiloscópica imagem azulada de um incidente banal e pueril, digno de ser esquecido na gaveta da memória.

Nessa crença acreditei, durante mais de três décadas, como se crê num dogma, sem avaliar o quanto era errônea a minha boa fé.

 * 

“Com que direito o tempo passa tão depressa” foi o que me perguntei quando Letícia Whishaw estendeu a mão – e com a mão me estendeu na ponta dos seus dedos finos, de mulher de trinta anos – ao professor Thomas Gaizler.

O encontro entre os dois se dava no apartamento de Letícia onde, a convite dela, o professor, agora um homem de meia idade de currículo acadêmico consagrado, fora para uma entrevista investigativa sobre a real autoria do livro “Arábia Feliz”.

Úmido e morno foi como eu senti o aperto de mão do professor no aperto de mão de Letícia, num estranho contraste dermotérmico.

Da minha parte, porém, um calafrio percorreu as ranhuras sutis do meu polegar, indicador e dedo médio – para falar apenas das digitais do cata-piolho, fura-bolo e pai de todos que um dia, lá atrás, se transferiram em carimbagem azul da mão da menina Letícia para a folha de rosto de um livro de poesia que se tornou obra prima.  

Entenda-se a emoção.

Trinta anos antes eu fui gentilmente tolerada como um autógrafo invasor no exemplar que coube ao professor Thomas.

Trinta anos depois, eis que o professor se reencontra ao vivo com quem marcara com dedos sapecas o livro que lhe coubera numa noite de autógrafos, num incidente que estaria condenado a se perder na memória das irrelevâncias não fosse a questão literária de uma falsa autoria (para mim de pouca relevância) que, pela primeira vez, punha a mim e ao professor em contato pele a pele.

Nem venham me dizer os céticos das insondáveis tramoias do destino que as digitais do livro não eram as mesmas da mão que apertou a mão do professor, por força de modificações ditadas pela vazão do tempo. A estes descrentes eu recomendo a leitura dos tratados de datiloscopia onde se ensina, aos mal informados, que são imutáveis as papilas datilocapilares desde que se formam no bolsão uterino para somente se desfazerem, em condições naturais, com a putrefação cadavérica.

Portanto, eu, a digital tríplice do livro “Arábia Feliz”, era a mesmíssima digital, sem alteração de meandros e linhagens, que vibrava no sacudido aperto de mão entre Letícia Whishaw e o professor Thomas Gaizler.

Todavia, algo mais profundo e espantoso se manifestou em meu sentido, sob a pressão da mão que me apertou na mão de Letícia: a sensação romântica (urdida por Merlim, o bruxo?) de que a aparente banalidade da marca digital que de mim ficara trinta anos atrás no exemplar do livro “Arábia Feliz” embutia em si uma mensagem de predestinação prestes a se consumar dentro em pouco.

Desconsidero o sinuoso enredo das prelibações que demandaram um bom tempo de conjecturas teórico-literárias entre Thomas e Letícia, sobre a questão da autoria poética que os absorvera, para ir direto à realização do vaticínio.

Nesse encontro em que Thomas e a filha do poeta acabaram passando a noite juntos, eu, a digital azul e tríplice de uma festa de autógrafos na tradicional Livraria Aedo, fui intensamente beijada pelo professor a ponto de chegar ele ao extremo de uma ordenha bucal e salivante, não tenho pejo de dizer!

Não fora exagero, diria até que fui beijada linha por linha em minhas datiloscópicas nervuras, nos três dedos que se cunharam em vinheta colorida no rosto da página de rosto de um livro que outro não poderia ser senão um clássico de alta inspiração poética.

E aos encharcados beijos que me foram dados, em que o professor recordava a grata lembrança da Livraria Aedo, retribuí com novas e fervorosas variações autográficas, só que desta vez intencionais, e não menos travessas, levando-o a viver, naquela noite com Letícia, uma Arábia Feliz e inesquecível, que me soube emocionante e avassaladora, não tenho pejo de dizer, repito.

 


Para Reinaldo Santos Neves, em remissão ao conto “Arábia Feliz”, in Heródoto, IV, 196, Cousa / Phoenix, Vitória, 2013.

 

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