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O fantasma na praça

 

 

Mal avistei o fantasma do centro histórico de Vitória não me contive, eu que sempre que posso fujo dele:

 

“Que cara é essa, meu digno?”

 

Sua cara era exponencialmente mais desagradável do que aquela a que eu me habituara em nossos encontros ocasionais.

 

A resposta que recebi foi um gesto cinematográfico de cinema mudo, lembrança talvez de alguma fita a que o fantasma tivesse assistido no Teatro Melpômene, em que apontou o busto de Jerônimo Monteiro ao nosso lado, na praça Costa Pereira.

 

Olhei o monumento da cabeça ao pé do pedestal e não vi nada que chamasse a atenção.

 

“Estou na mesma,” disse ao fantasma.

 

“Você não vê ou não quer ver?”

 

“Não vejo o quê, meu digno?”, tive de insistir diante da sua demora em se dar a entender.

 

“A cabeça de Jerônimo, meu ínclito! Olha a cabeça e os ombros dele. Está tudo conspurcado de fezes de passarinho! E é de longa data!” esbravejou o fantasma nos meus ouvidos. “Uma ignomínia para com um dos maiores presidentes do nosso Estado! Parece até estátua de Mané Cocô e não do grande Jerônimo Monteiro... Lembra-se de Mané Cocô?”

 

“Não é do meu tempo.”

 

“Não é porque você não viveu naqueles tempos quando não havia esgoto em Vitória e os conteúdos dos penicos caseiros eram colocados em tonéis, nem sempre bem vedados, que Mané Cocô levava na cabeça para despejar na maré... E quem foi que acabou com essa miséria urbana, dotando Vitória de rede de esgoto, quem foi?”

 

Antes que eu desse a resposta solicitada o fantasma repetiu o gesto cinematográfico na direção do busto, dizendo “olha ele ali, ironicamente besuntado de excrementos como um Mané abandonado. Afinal, meu preclaro, esta sua cidade tem ou não tem prefeito?”, terminou por indagar carregando no possessivo como se a cidade não fosse também dele, nascido e morrido nela.

 

O pior é que o fantasma estava coberto de razão, como o infeliz busto estava coberto de detritos. De sua cabeça desciam brancos filetes como estalactites esculpidas pelos passarinhos, à espera de uma limpeza decente.

 

“Não parece que Jerônimo, o admirável Jerônimo Monteiro, está, com o perdão da má palavra, suando merda?”, voltou à carga o fantasma. “Eu sei que a expressão é forte e não costumo dela me valer, mas não encontro outra que expresse melhor o que está diante das minhas cavidades oculares.”

 

“Você está certíssimo” disse eu em abono da imagem a que o fantasma recorrera, inspirada nos filetes cravados na cabeça de Jerônimo parecendo que faziam parte do busto como veios criados pela mão do escultor. 

 

“Não é só o busto de Jerônimo que está neste estado de pestilência asquerosa. Todos os outros aqui da Costa Pereira estão em condições idênticas (o fantasma se referia aos bustos de Florentino Avidos, Afonso Cláudio e Muniz Freire, um em cada curva da praça). No tempo do intendente Cleto Nunes, meu dileto amigo, isso jamais aconteceria! E os administradores de hoje ainda têm o desplante de trazer estudantes e turistas para visitar os monumentos aqui da praça, acompanhados por guias de turismo. É uma pilhéria de mau gosto, que me indigna. Sabe que eu faço o que posso para a conservação desses monumentos, numa luta que acaba sendo solitária?”

 

A pergunta acendeu minha curiosidade:

 

“O que é que você faz?”

 

“A única coisa que está ao alcance de um fantasma: sempre que passo por aqui e vejo um passarinho se preparando para pousar em cima de um dos bustos, trato logo de espantá-lo. Outro dia, fui às vias de fato com um bem-te-vi mais belicoso que teve a petulância de me enfrentar, ouça só, um bem-te-vi se metendo a besta com um fantasma!”

 

“Como você fez para espantá-lo?”

 

“Ele tinha acabado de pousar na testa de Afonso Cláudio e antes que fizesse o pior que estava para fazer, eu parti para cima dele num raspante que o desalojou de onde estava. Só que ao se sentir desafiado, contra-atacou na minha direção com disposição de guerra. Foi preciso que eu me valesse de uma das minhas baforadas sepulcrais para prostrá-lo ao solo. Mas na cabeça do grande Afonso Cláudio ele não ficou! Infelizmente, como nem sempre passo pela Costa Pereira, os bustos daqui sofrem com os passarinhos. Eu até compreendo que isso aconteça. O que não aceito é que não sejam limpos com regularidade. É por isso que meu amigo Costa Pereira, com quem me encontrei outro dia, me pediu encarecidamente para tomar uma providência em favor da limpeza dos bustos da praça que tem o seu nome. Ele sabe que eu costumo baixar pelo centro da cidade, coisa que ele não faz há muito tempo. Ainda me lembro do seu apelo: ‘Use da influência de algum amigo que você tenha lá embaixo’.”

 

“Sobrou pra mim,” foi o que pensei quando o fantasma disse o que disse.

 

“Aliás, você bem que podia ser o nosso intermediário junto ao prefeito de Vitória para a limpeza dos bustos... Marque uma audiência com ele para externar o nosso pleito,” disse o fantasma.  

 

“Ele vai achar que eu fiquei maluco, falando em nome de vocês,” tentei escapulir da prebenda que o fantasma me arrumava.

 

“Então fale em seu nome pessoal,” rebateu ele.

 

“Não tenho tanto prestígio para convencer o prefeito,” fiz sentir ao fantasma.

 

“Neste caso escreva uma crônica sobre o assunto. Quem sabe o prefeito possa lê-la?”

 

“Isso eu me comprometo a fazer,” aquiesci para me livrar da insistência com que era pressionado. 

 

“Eu sabia que podia contar com você. Costa Pereira vai ficar satisfeito quando eu lhe contar. E desde já muito obrigado por ter me dado a oportunidade deste encontro que me deixou de alma leve.”

 

Devia ser verdade, pois sua cara, quando partiu, voltara a ser exponencialmente mais tolerável do que a que exibia no começo da nossa conversa. E antes que desaparecesse da minha frente fez a recomendação: “Mãos à crônica, mãos à crônica!”

 

A crônica prometida, aqui está, inclusive com ilustração fotográfica para comprovar que sobram ao fantasma razões para dizer que parece que o busto de Jerônimo, o grande Jerônimo Monteiro, está suando... (me dispensem da má palavra).

 

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