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O grande sabá comemorativo no centenário do Parque Moscoso

 

Há na esquina da Rua Duque de Caxias com a Dionísio Rosendo, no centro histórico de Vitória, um monumento de alvenaria com um enorme telefone preto sobre um pequeno pedestal. Foi ali que o fantasma do centro histórico da cidade literalmente me pescou pelo sovaco, com seu dedo ossudo e curvo.  

 

- Bom encontrá-lo, meu digno, logo aqui na subida da Rua das Flores (para o fantasma a Dionísio Rosendo continua sendo a mesma rua enladeirada dos seus tempos de vivente). - Queria muito lhe dizer que senti a sua falta.

 

- Minha falta onde? – perguntei depois de ser puxado pelo anzol digital do fantasma.

 

- À comemoração dos cem anos do Parque Moscoso. Parquemoscosense da gema, como você gosta de se apregoar, tinha a obrigação de estar presente.

 

Expliquei ao fantasma que no dia da comemoração eu acordara febril e achei por bem guardar o leito.

 

Ele apreciou o purismo da minha resposta, mas não engoliu a justificativa. E passou a falar da comemoração sem que eu pedisse ou ousasse impedi-lo.

 

- Verdade que a solenidade oficial foi indigna das melhores tradições do Parque. É de se lamentar a falta de sentimento histórico dessa gente que atualmente governa a cidade de Vitória. Fizeram uma festinha insulsa. Ainda bem que teve a outra comemoração, que você devia ter prestigiado.

 

- Eu só tive conhecimento da que você chamou de insulsa. Houve outra? 

 

- Houve a da velha guarda que se encontrou na parte do Parque em frente ao Instituto Histórico. Deparei-me lá com alguns conhecidos que não via há algum tempo – disse-me o fantasma, citando os deparados: - Jerônimo Monteiro foi um deles e, como sempre, muito elogiado por todos. Vi também o Henrique Moscoso, que deu nome ao Parque. Parecia uma criança de tão exultante ou, melhor dizendo, um fantasma criança. Também estive com o médico Chapot Presvot. Aproveitei a azada ocasião para consultá-lo sobre uma pelanca que ainda tenho no peito, que não me larga. Quer vê-la, meu digno?

 

Descartei firmemente a nojenta proposta do fantasma antes que ele começasse a desabotoar o colete para exibir, com a maior naturalidade do outro mundo, o pelame crônico como uma medalha íntima. 

 

- Você não sabe o que perdeu! – disse com ênfase.

 

Solta a frase naquele ponto da conversa fiquei, a princípio, sem saber se dizia respeito à pelagra grudada no seu peito magricela ou à minha não ida ao Parque Moscoso. Logo compreendi que se referia à minha ausência na comemoração do centenário.

 

- Dom Fernando, o bispo – continuou meu informante -, também apareceu. Desceu pela ladeira que tem o seu nome. Disse que se atrasou um pouco porque ficou esperando o Bonde Circular, que não passou. Pouco depois chegaram juntos os dois Gomes, o Nestor e o Cardim, que igualmente comeram mosca esperando o Circular. Distrações de fantasmas inadaptados às velozes mudanças do mundo dos vivos, que raramente visitam. Na hora dos discursos – estou falando dos que foram proferidos na “nossa reunião” -, adivinhe quem usou da palavra?

 

- O presidente Jerônimo... – arrisquei sem possibilidade de errar.

 

- Sem dúvida. E antes dele, Henrique Moscoso. Mas antes dos dois? – insistiu o fantasma.

 

- Não faço ideia.

 

- Falaram Thiers e Kosciuzko, competindo entre si em condoreiras e brilhantes alocuções. Seu avô, o primeiro prefeito de Vitória, discursou em seguida. Mas confesso que o achei perfunctório, sem a luzidia retórica dos dois imortais que o precederam. Felizmente adquiriu fluência depois de morto.

 

- Fico feliz de saber dessa novidade – disse relembrando o quanto a gaguice atrapalhava a modesta oratória do meu avô. 

 

- Você precisava ver o Cleto Nunes! Não cabia em si de contente elogiando a avenida homônima: ‘Como está mudada! No meu tempo era a estrada para Santo Antônio. Agora virou uma conturbada avenida’. Já o Misael Pena, coitado, estava inconsolável com a demolição do quartel de polícia, na praça que leva o seu nome. Que pena o Misael me deu! – disse o fantasma sem atentar para o trocadilho que havia feito. - Outra satisfação que eu tive foi rever a Rainha das Flores, com sua sombrinha e seu florido ramalhete no braço. Pareceu-me até mais jovem, sem o ruge besuntado na face.

 

- E o Paulo Mota? Você não falou nele... – comentei esperando que o paisagista do Parque Moscoso não tivesse comparecido, o que seria uma atenuante para o meu caso.  

 

- Se você não me lembrasse, ia me esquecendo dele. Paulo Mota era outro que estava amuado com as mudanças que ‘os pósteros destituídos de senso estético’, na definição que ele usou, causaram ao Parque Moscoso. Constrangeu-me vê-lo tão arrasado e com carradas de razão. O Parque é um arremedo hodierno do que foi nas primeiras décadas do século passado. Ainda bem que o presidente Jerônimo Monteiro deu-se um bom tempo a consolar o Paulo Mota.

 

- Gratissima persona, dr. Jerônimo – disse eu valendo-me de uma expressão que sabia ser do gosto do fantasma.    

 

- Você tirou as palavras da minha boca! 

 

- Não foi por mal – brinquei com ele, me arrepiando um pouco ao pensar na força daquela imagem: tirar as palavras da boca de um fantasma!

 

- Sei que não foi por mal, meu digno. E antes que me fuja à lembrança, quem baixou na festa foi aquele pederasta que mariscava rapazes nos fundos do Parque Tênis Clube, qual era o apelido dele?

 

- Campista...?

 

- Ecce homo! Foi preciso que eu o conhecesse depois de morto para descobrir a boa alma que ele é. 

 

À afirmativa do fantasma não pude deixar de retrucar:

 

- Eu pensava que você fosse homófobo...

 

A princípio ele não entendeu o sentido da palavra que eu usei. Depois de lhe explicar o que queria dizer, o fantasma confessou:

 

- Eu discriminava os pederastas quando estava vivo, meu digno. Bom católico que fui, coroinha quando menino, admirador do Papa Pio IX, pautava minhas ideias pelo que se lê no Levítico 18:22: “Não dormirás com varão, como se fosse mulher”. A morte, porém, iguala todos. Esta verdade nós aprendemos depois de mortos.

 

- Pelo que você está me contando, no centenário do Parque só tinha gente boníssima.

 

- Nem tanto, meu ínclito... – discordou o fantasma – Porque tive o desprazer de avistar Santos Dumont, com quem não simpatizo já que sou adepto dos irmãos Wright. Estou lhe dizendo isso numa declaração reservada, de pé de ouvido. Não vá comprometer a minha memória dando com a língua nos dentes...

 

- Santos Dumont apareceu por lá? – indaguei surpreso.

 

- Ele mesmo. Estava encostado ao busto que o homenageia com aquele chapeuzinho indefectível que dá a entender que o vento é que o carregou pelos ares, e não o 14-BIS.

 

- Eu nunca entendi aquela estátua que plantaram ali – associei-me ao desgosto do fantasma.

 

- É bom saber que você pensa como eu. Mas descontando Santos Dumont, insisto em dizer que você devia ter comparecido.  

 

Voltando à reprimenda inicial do nosso encontro o fantasma deu por encerrado seu relatório sobre o grande sabá do centenário do Parque Moscoso. Prestes a partir me advertiu:

 

- Vê se não vai faltar quando chegar o bicentenário! Até porque, em 2112, você não poderá pretextar nenhuma doença que o impeça de se fazer presente...

 

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