O neobarroco em Aninhanha

Josina Nunes Drumond

aninhanha

Neste trabalho, pretendemos percorrer algumas trilhas neobarrocas da obra Aninhanha, de Pedro José Nunes. Seguiremos traços conceituais, atentos à imponência do caminho e às flores que o bordejam: trata-se de figuras de estilo e de recursos estilísticos que embelezam a composição do ramalhete. Restringimo-nos à colheita das flores que enfeitam barrocamente as inúmeras sendas que se dispõem diante de nós. Tropeçamos em hibridismos linguísticos, escorregamos em distorções sintáticas, mas percorremos prazerosamente as trilhas que conduzem ao objetivo proposto. Devido à polissemia da obra, deparamos com inúmeras possibilidades de atalhos, nos quais corremos o risco de nos perder antes de retomar o caminho principal. Às vezes ficamos desnorteados diante de uma escritura labiríntica, fragmentária e hermética. Escolhemos apenas algumas “trilhas mais batidas”, ou seja, mais recorrentes e/ou relevantes, segundo nossa leitura, que, como toda leitura, é incompleta e lacunar. Leia

 

Contos de um capixaba espelhados na arte narrativa de Rubén Dario e Jorge Luiz Borges

Ester Abreu Vieira de Oliveira

Há, em uma obra de arte, uma integração com as outras obras do universo literário. O estado de legibilidade está no agrupamento da repetição, o que Julia Kristeva denomina “intertextualidade”. E, como é dentro de um sistema que se pode compreender melhor uma criação, juntamos aqui um terceto de escritores latino-americanos no gênero narrativo, reunidos não por usarem o mesmo código linguístico, mas por terem particularidades formais e temáticas semelhantes. Dois deles mundialmente conhecidos, o nicaraguense Rubén Darío e o argentino Jorge Luis Borges e um pertencente à literatura periférica, a do Espírito Santo, Luis Guilherme Santos Neves. Este último seleciona motivos de Borges e os (re)escreve. Porém, no entrecruzar das semelhanças e diferenças, apresenta-nos um texto original. A sua dívida aos dois escritores latino-americanos advém não da intenção de dependência cultural ou de um desejo de mutilação, mas de um diálogo declaradamente expresso com o argentino. Nele, via literariamente histórica, o horizonte periférico se estende até o escritor nicaraguense, impregnado de ideologia colonizadora. Com a técnica de reescrever Borges, o capixaba identifica-se, via Darío, com o universal. Dilacerando uma escritura, afirma a sua. Leia

 

Meu encontro com José Carlos

Quando me inscrevi, pela primeira vez, como candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, havia dois outros candidatos: a romancista Dinah Silveira de Queiroz e o ex-ministro Gustavo Capanema. Quando fui fazer minha inscrição, um funcionário da ABL avisou-me, com a máxima franqueza: “Acho melhor o senhor deixar para outra oportunidade, porque esta ‘vaga’ é da Dona Dinah”. Perguntei por que, a ele e a uma porção de outras pessoas “ligadas” às eleições acadêmicas, e as respostas, quando não eram muito evasivas, davam-me a entender que Dona Dinah era casada com um destacado membro do Corpo Diplomático, membro esse capaz de conseguir uma porção de vantagens para alguns acadêmicos. Leia

 

Memória das cinzas

Luiz Guilherme Santos Neves

Livro integral

A substância deste romance é o sonho – e de qual romance não seria? Aliás, como é a da vida: “vida é sonho”. Sonho imemorial, sonhado por homens e artistas – a busca da transcendência. Buscamos constantemente nos elevar acima da nossa vida cotidiana por sabê-la limitada, provisória, suspensa por parco fio que um dia a Parca Átropos, a Inflexível, cortará. Nesse sentido podemos entender a máxima “vida breve, arte longa”: a existência individual passa rápido, mas a arte, se possuir valor estético e for compartilhada socialmente, costuma ter duração bem maior. (Fernando Achiamé) Leia

 

Tavares Bastos: o embaixador da poesia brasileira na França

Anaximandro Amorim

Antonio Dias Tavares Bastos. Certamente, você nunca ouviu falar nesse nome. Sinceramente, nem eu, há algum tempo. Engolido pela poeira da História, deparei-me com o nome de Tavares Bastos, pela primeira vez, lendo o “Mapa da Literatura Brasileira produzida do Espírito Santo”, do escritor Reinaldo Santos Neves, publicado no site “Estação Capixaba”. Desde então, luto para fazer o nome de Bastos reluzir novamente. Leia

 

Do que eu falo quando falo sobre a escrita

Eduardo Madeira

Em diálogo com Ernesto Sábato, Borges afirma, referindo-se ao fato de que o Dom Quixote é muito mais do que uma sátira contra o romance de cavalaria, assim: “Se ao final, quando termina a obra, o autor pensa que fez o que tinha se proposto, a obra não vale nada”. A frase diz respeito ao processo de criação de um texto literário que, certamente, deve partir de um planejamento, um roteiro, uma pesquisa, mas seu autor também deve permitir que o processo em si o leve a caminhos nunca dantes navegados, que seu processo lance luz sobre o desconhecido, que ele surpreenda a si mesmo e que não se torne refém do próprio discurso. Leia

 

Um pedaço de história

Fernando Achiamé

A torta capixaba é capixaba. Da gema. Pois nasceu em Vitória. Aos poucos, com timidez, se expandiu para outros locais do Espírito Santo, principalmente os situados em seu litoral. Porém avançou a contragosto. Já o nome capixaba se espalhou por todo o estado e até mesmo para além de suas divisas; em Rondônia, por exemplo. Nosso prato não. É até ignorado no interior. Em Colatina faz-se mais torta de bacalhau, me conta um amigo. E outro garante: os nascidos na região do Caparaó somente conhecem essa especialidade vitoriense depois que saem de lá. Leia

 

Recordações do futebol de Vitória

Ivan Borgo

Livro integral

Ivan Borgo diz que Recordações do futebol de Vitória é um livro impressionista. Garante que o futebol é apenas um pano de fundo, cenário que serviu para desfiar as recordações de uma Vitória nos anos 50/60, hoje quase mítica. Estou certo de que a maior parte dos leitores desta 3ª edição do livro ainda não havia desembarcado nesse “vale de lágrimas” quando Ivan começava a frequentar, lá em Jucutuquara, o estádio Governador Bley em busca das emoções que só aquele futebol, e o amado Rio Branco A.C., poderiam imprimir no coração de um jovem aprendiz de humanidades. Então, leitores, aproveitem, porque parte disso está gravado em preto e branco nas páginas deste livro, mais que impressionista, impressionante! Boa Leitura. (Caco Appel) Leia

 

160 anos de história: Biblioteca Pública do Espírito Santo

Vários autores

Livro integral

Na organização desta obra, que reúne escritores, professores e bibliotecários, escrevem as organizadoras: "Cabe-nos apresentar, nesta coletânea, uma síntese dos princípios que nortearam a Política de Preservação de Acervos da Biblioteca Pública do Espírito Santo, cujas ações têm sido decisivas para a consolidação da instituição não apenas como guardiã de um importante patrimônio do povo espírito-santense, mas também como referência local e nacional de sua memória e de sua identidade. Nessas ações assentam-se as bases de uma política cultural de valorização do conhecimento, da ciência e das artes voltada para o cumprimento de sua função social, qual seja a de assegurar acesso à informação e ao conhecimento para todos e contribuir para formar cidadãos mais críticos e qualificados para a vida em sociedade." Leia

 

A série Letras Capixabas: uma contextualização

Francisco Aurélio Ribeiro

Quero começar a contextualização da série Letras Capixabas pelas afirmações de Hallewell a respeito da situação do livro no Espírito Santo, neste século, para que melhor se vislumbre a situação de penúria e miséria editorial neste Estado até a criação da editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida-UFES, em novembro de 1978, cujos objetivos gerais eram “a redução do grande vazio editorial capixaba, publicando obras que venham enriquecer o patrimônio científico e cultural do Espírito Santo”. Leia

 

O assunto não é de hoje. Há 162 anos, ou seja, em 1856, ao apresentar a primeira antologia de que se tem notícia em terras capixabas, o Jardim poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da província do Espírito Santo, José Marcelino Pereira de Vasconcelos já conhecia as dificuldades em torno do livro, quando diz: “Um serviço importante presto nesta publicação à minha província; mas só o reconhecerão, depois que decorrerem séculos”. O assunto é a estrela de quase todos os encontros literários que se promovem de norte a sul. Newton Braga e Renato Pacheco, cada um a seu modo e a seu tempo, pensaram a respeito, e pensaram por escrito. Se a questão do livro é grave, conhecer a situação de outras épocas e confrontá-la com a nossa própria pode ser um bom ponto de partida para a busca de soluções. Por isso indicamos os artigos dos dois conhecidos escritores capixabas que legaram-nos suas reflexões a respeito.

Nem pro gasto, Newton Braga

Introdução à história do livro capixaba, Renato Pacheco

 

José Carlos Oliveira em cinco crônicas

José Irmo Gonring

José Carlos Oliveira, em 1968, escrevia seis crônicas por semana. Deve ter ido muitas vezes solteiro para a cama. Assim, a gente lê os textos daquele ano e tenta classificar, por mês, os melhores, os piores (tarefa difícil) e os mais jornalísticos (alguém inventou que “crônica é jornalismo e literatura”).

Para que isso? Para destravar a criação da turma. Para mostrar que esses textos são quase que um diário, que tudo pode ser assunto, de dentro ou de fora de si. E que nem todos os dias são de “inspiração”. Entendemos ser bom mostrar também as rasuras, em vez de “as melhores de fulano”, “as cem melhores do Brasil”. (Os textos escritos em 1968 foram recolhidos no livro póstumo “Diário da Patetocracia”, editora Graphia).

A mocidade com quem trabalho passa a conhecer e curtir “Carlinhos”. Ri com ele. Admira seu estilo, sua coragem, e o considera melhor que Verissimo. Sinto que gostam de saber que ele convivia com companheiros da noite como Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Leia

 

Roberto Almada

Ester Abreu

Roberto Almada (1935-1994), professor, crítico literário, dramaturgo, contista, romancista e poeta, nos deixou, também, comentários jornalísticos. Alguns de seus livros continuam inéditos. Em 1985, ganhou o Prêmio “Geraldo Costa Alves” com a obra O País d’el Rey & a casa imaginária, publicada, no ano seguinte, em 1986, pela FCAA-UFES.

Almada era escritor, mas um bom leitor. Apreciava os escritores ingleses, franceses e os hispânicos. Leia

 

Biblioteca Pública do Espírito Santo

Faça um passeio pela Biblioteca Pública do Espírito Santo com este vídeo produzido por Pedro J. Nunes, escritor residente da BPES. Assista

Colunas

O sino do carmo

Quando ouço o som dos sinos, ouço a voz da minha infância. Devo esta recorrência infantil ao sino do Carmo. E também me vem à lembrança o verso de Bandeira: “sino de Belém, que vai ser de mim...”

O som onomatopaicamente debochado do sino do Carmo me chamava para a missa de domingo, propagando com estridência a toada conhecida na cidade, ofensiva às irmãs de caridade vicentinas.

Uma dessas irmãs, pequenina como o próprio nome – Zoé –, com sua enorme corneta branca mais parecendo uma caravela ao vento, foi quem me iniciou nas agruras do catecismo para o exorcismo das minhas inqualificáveis culpas infantis. Leia

 

No interior da caverna erudita

Um sebo tem suas castas, suas hierarquias. Por exemplo, ali está a Brasiliana instalada numa bonita estante mostrando títulos de indiscutível importância: O positivismo na República, Sincretismo religioso afro-brasileiro... Assuntos sérios respaldados em severas pesquisas e resultado de fundas reflexões. Justo portanto que pontifiquem ali no pedestal, na estante de ar asséptico e superior, acima da livralhada, do populacho que chafurda por debaixo, espremido em grandes gôndolas de pintura descascada. Leia

 

Missa em latim

Na década de 1950, enquanto voava de Varsóvia para algum lugar, Graham Greene sorriu para si mesmo ao se lembrar das várias vezes que seus leitores lhe perguntavam por que ele costumava escrever romances policiais. Seu sorriso era uma espécie de rendição, pois ele não acreditava que um escritor escolhesse seus temas, mas, sim, que era por eles escolhido.

Não é com nenhuma cerimônia que as lembranças encontram dentro de mim, lá onde o tempo faz a curva, uma história guardada sob os sete véus da inconsciência. Desse encontro brota a inquietação, e quando dou conta a história já se instalou, feito uma erva daninha do bem, e surge e ressurge em minha consciência até que se extraia. “Para sobreviver, tens de contar histórias”, prescreve Umberto Eco. Leia

 

Périplo - versos masculinos

Com oito anos de idade recebi do avô a tarefa de ler um livro, na verdade um livro na forma de dois volumes grandes. Capas brancas, com letras douradas: “Bíblia Sagrada”. Ele não precisou insistir muito para o menino começar a cumprir a missão. Na primeira folheada a descoberta das ilustrações a bico de pena reforçaram minha determinação de avançar pelas páginas. Sem dúvida aquela foi minha primeira aventura de longo curso no mundo da leitura. Era um trabalho diário, que consumiu alguns anos para que o considerasse encerrado, porque eu lia e relia, com grande prazer, as centenas de páginas naquele papel fino, quase transparente. Pouco tempo adiante caiu nas minhas mãos uma enciclopédia – não lembro o nome – onde, publicada em prosa, estava a Ilíada, também com ilustrações fabulosas. Não me lembro de quantas vezes reli o que ainda é para mim a maior aventura de todos os tempos. Na ocasião aquela adaptação à prosa foi fundamental. Só muitos anos depois é que tive condições e energia para ler Homero na sua forma original em versos, em português, claro. Acredito que a leitura da Ilíada – e da Odisseia – deveria ser um trabalho, uma coisa obrigatória, para qualquer um que se diga interessado por literatura. Leia